MÁRIO LÚCIO MARCHIONI - Terça-feira, 03 de Julho de 2012 - 14:44:13

 

“A fé de minha infância se desenvolveu com normalidade. Crer em Deus e em seu Filho Jesus Cristo continuava sendo para mim algo normal, uma verdade inquestionável. Apesar disto, na medida em que ia crescendo, durante minha adolescência, o conhecimento da história da igreja e seus desacertos me fez desconfiar cada vez mais da instituição. Outro aspecto fundamental de minha vida é que sempre fui intelectualmente muito curioso. Minha curiosidade e assombro diante da natureza sempre foram manifestos e se concentravam no fato de que sempre me sobressaí nas matérias científicas do colégio. Quando tinha 16 anos, me pareceu que a visão científica do mundo era incompatível com a crença em Deus. Encontrei respaldo para tal conjectura no fato de que fui conhecendo algumas frases filosóficas impactantes cuja interpretação realizei com a pressa escolar própria de alguém que nunca mostrou interesse especial pelas humanidades no colégio e, portanto, nunca estudou a obra daqueles aos quais eram atribuídas ditas afirmações. Concluí: ‘Definitivamente, Deus não existe. Deus é uma invenção para suportar o sofrimento produzido tanto por outros homens como pela própria vida.’”

Relatos como este têm se repetido com certa frequência nos últimos tempos. São adolescentes e jovens que não apenas relaxam na vida religiosa ou deixam de frequentar espaços religiosos, mas que fazem questão de se proclamarem ateus. E anunciam sua descoberta ou decisão a seus pais ou a algum padre. Nem se dão conta de que, na verdade, estão também professando uma fé.

Por que tem ocorrido este fenômeno? A questão é, sem dúvida, complexa e envolve situações particulares. Mas dá para dizer que algumas situações têm se repetido.

Uma delas é a descoberta de que a história da Igreja tem episódios tristes e lamentáveis. E é verdade que isto existe. Mas uma visão superficial da história (que é o que muitas vezes se encontra nos livros ou nos programas escolares) ofusca o fato de que estes episódios não são tudo e não permite ver o quanto o cristianismo contribuiu com a formação da sociedade. Quando se estuda a Inquisição, por exemplo, esta costuma ser apresentada como uma atuação implacável da Igreja contra seus opositores, sem se dar conta de o quanto os tribunais da Inquisição foram usados não pela Igreja, mas por interesses políticos; sem se dar conta de que há princípios adotados e valorizados hoje e que foram estruturados pela Inquisição, como o princípio de que ninguém pode ser julgado sem ter conhecimento daquilo que se alega contra si.

Outra situação é a crença de que a ciência é capaz de explicar tudo, não sendo mais necessário invocar a ideia de divindade, que seria algo superado e irracional. Trata-se mesmo de uma crença, porque um olhar objetivo para as pesquisas científicas mostra quanta coisa fica sem explicação. Atribui-se a Louis Pasteur, a quem se devem tantos avanços da medicina, a afirmação de que “pouca ciência afasta de Deus, muita ciência aproxima dele”. De fato, quem se aprofunda na investigação científica percebe que a ciência não tem resposta para muitas questões e que não se trata apenas dos limites atuais da pesquisa, mas de limites da própria ciência.

Uma terceira situação é a repetição de frases de efeito. Ou seja, toma-se uma frase que causa impacto e que parece resolver o assunto. São, no entanto, frases tiradas de seu contexto, de maneira que quem as repete nem sabe o que seu autor quis mesmo dizer. Além disto, são frases de um ou outro pensador (em especial, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche), sem levar em conta tantas outras manifestações sobre o mesmo tema.

Dá para notar que estas situações mencionadas envolvem sempre uma compreensão apressada e resultante de certo deslumbramento. Características típicas da adolescência e da juventude. O que fazer, então? Isto é coisa que passa? É bem possível.

É claro que não há receitas prontas para lidar com uma proclamação de fé ateia. Apesar disto, algumas indicações podem ser úteis para pais, padres, catequistas e outros educadores.

É preciso ter profundo respeito pela pessoa que se manifesta ateia, mesmo que a situação cause espanto ou desgosto. Não se veja este momento como um fracasso na educação na fé. Não esquecer a recomendação de estar sempre pronto para dar a razão da própria esperança, fazendo-o com mansidão e respeito (cf. 1Pd 3,15-16). Para isto, é preciso aprofundar a compreensão e a vivência que se tem da fé. Lembrar que, com frequência, o reencontro com Deus dependerá de um amadurecimento pessoal que poderá ser longo. Cabe proporcionar o tempo e os meios para isto, como a possibilidade de esclarecimento das dúvidas e angústias que afligem a pessoa. Rezar para que a pessoa reencontre o caminho da fé é uma obrigação diária, principalmente para os pais.

A propósito: o relato que abre este artigo é de Juan Manuel Pérez, um colombiano que contou sua experiência no livro “Do ateísmo à fé cristã” (sem tradução em português). Como ateu, ele decidiu estudar biologia com o propósito de provar como a ciência era suficiente para desvendar os mistérios da vida. Confrontado com certas questões, percebeu que só com Deus havia explicações convincentes. Depois de longa busca, retornou ao catolicismo. Hoje é um irmão religioso jesuíta.